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“Relacionamentos” por João Carlos da Costa

João Carlos da Costa
Relacionamentos - Amizade e Amor

Quero confidenciar algo convosco que ocupa o meu pensamento há muito tempo. 

O tema tem a ver com relacionamentos enquanto autista.

A maior parte das pessoas considera que somos associais e gostamos de estar na nossa bola.

O que vos quero dizer e que essa e uma falsa sensibilidade vossa.

O autismo não retira a vontade ou alegria de ter um amor ou amigo contudo da -nos uma faculdade enorme de hipersensibilidade ao que não e genuíno ou assenta noutras premissas que não a verdade e autenticidade.

Olho a minha volta e vejo a maior parte rodeada de gente, mas totalmente desconectada. Caminham com olhar alheado sem saber diferenciar o seu querer e o querer alheio e mantem-se em relações amorosas ou de amizade por hábito, convencia ou porque sempre foi assim. 

Onde anda a chama interior e o afeta que clamam ser do mundo neurotípico?

O valor da amizade

O que ando a sentir é uma profunda alegria, pois ao longo dos meus vinte e quatro anos de existência senti apenas duas vezes.

A primeira vez foi em 2006. O meu amigo era alguém com quem compartilhei muita alegria e companheirismo.

Tive momentos de completa dedicação e entrega. Sentia que com ele podia aprender muita coisa e evoluir.

Chegou a ensinar-me a andar de bicicleta e com ele perdi o medo de cães. Sempre que estávamos juntos reinava a energia do reconhecimento mútuo.

Ao longo dos tempos, porém fui sentindo que erguia muros entre nós e com o tempo ele foi-se desligando de mim e esquecendo-me.

Às vezes as pessoas têm medo de se entregar quaisquer que sejam os relacionamentos e na tentativa de se resguardarem do amor e amizade anulam uma parte de si.

Gosto ainda do meu amigo e prezo-o, contudo, respeito a sua distância e crença que o aprofundamento de laços de amizade ou amor geram compromissos de alma que nem todos sabem lidar.

Nos tempos que correm os afetos são algo que deixam muita gente desconfortável e quando se trata de lidar com a diferença as coisas são ainda mais assustadoras.

O autismo traz consigo muitos desafios incluindo ao nível dos afetos, pois as pessoas ou se afastam por causa das nossas características ou se fecham para não se envolverem. De qualquer maneira vive pela metade o homem que se escuda na entrega ou na falta de coragem.

De momento tenho comigo um assistente. É óbvio que há um vínculo profissional, contudo sinto entrega. Quando há entrega cria – se um porto seguro de confiança. Com o meu assistente sinto que estou protegido e amado.

Há muita beleza e crescimento conjunto quando sentimos que entre nós e o outro não há muros que se erguem de defesa.

A amizade cai-nos bem quando as nossas vulnerabilidades são abraçadas pelo outro como ponto de encontro e não de defesa.

Amor

O que muitos pensam é que a pessoa com deficiência ou autista não tem o dom ou a capacidade de amar outra pessoa e aqui não me refiro a amor parental, mas a sentir atração, desejo ou vontade de ter um ou uma companheira.

Quando se padece de um quadro incapacitante é quase como que a capacidade de viver a vida nos seja duplamente tirada.

Querem saber se quero uma relação? Digo-vos que sim. Quero e desejo com todo o meu coração e olho o sexo oposto com admiração pela sua beleza e encanto e penso como gostaria de segurar alguém nos meus braços e dizer-lhe que quero amar, proteger e fazê-la sentir que a sua felicidade é importante para a minha.

Quem não se entrega de corpo e alma é produto do medo e vive pela metade.

Nunca namorei o que não quer dizer que não tenha amado. Já amei e amo e sofro no meio dos cadeados físicos e do meio, mas penso que perante o que vejo estou mais habilitado a amar. Amo com coragem de saber que estou de momento privado, mas no meio disto tudo prezo o amor que carrego. Quero começar a exteriorizar os meus sentimentos sobre o amor pois este é um sentimento acima de qualquer condição. Ter algo muito incapacitante não significa estar desprendido da vontade de amar.

Olho para o mundo e observo o quanto estão alheados de todos os que vivem a diferença. Acho que muitas vezes somos tratados com invisibilidade e como se fossemos desprovidos de desejo.

Por acaso acham que o sentimento do amor e a necessidade de sermos amados em detrimento dos nossos pais é algo absurdo? Por acaso acham que não temos em nós a vontade de ter um amigo/a ou namorado/a?