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“Manual de boas práticas para os autistas” por Catarina Abreu

Catarina Abreu

Este texto tem um tom muito mais positivo do que os que tenho escrito (obrigada, antidepressivos). Escrevo já que aquilo que vou escrever é “easier said than done”, até eu tenho momentos em que só quero mandar tudo para… Não é positividade tóxica. Temos direito a estar zangados e bem zangados, mas a ideia é redirecionar a raiva para o verdadeiro vilão: o capacitismo.

1 – O valor somos nós que o damos

Geralmente temos baixa autoestima. Culpamo-nos por sermos assim, como se possuíssemos uma maldição e não fôssemos tão bons quanto os “normais”. A boa notícia é que sim, temos valor por nós mesmos. Também temos partes boas. E sim, eles dizem muita coisa sobre nós. Coisas más. Mas eles não têm direito a definir-nos dessa maneira. Eles não estão por dentro de nós, não sabem o que passamos. Como o velho ditado diz, quem não sente, não entende.

Então às vezes é melhor aplicar o entra a 100, sai a 1000. Os “ignorantes” são eles, não nós. Repitam comigo: nós somos suficientes. E os adjetivos pejorativos que nos dão, não tem necessariamente que ser verdade. “És lenta, Catarina” Pois, temos um cérebro que processa tudo, parece uma máquina. Claro que vai demorar mais, é como o computador, que ainda ouvi no outro dia “com um separador aberto só, vai ser mais rápido do que com dez!”. Assim claro que falhamos, mas isto não quer dizer que sejamos incapazes! Já experimentaram deixar-nos regular e reduzirmos estímulos? Já experimentaram adaptar o ambiente? Façam-no e depois apreciem o resultado. Lá se vai a lentidão.

2 – Encontrem os vossos concidadãos

Como muitos outros, tenho estado em contacto com vários grupos de autistas como eu. Isso tem feito uma revolução espetacular no meu modo de ver a vida. Agora tenho uma esperança e exemplos que não tinha antes, de pessoas que olham o mundo de forma semelhante à minha, que não julgam tanto. A nave finalmente voltou a casa. Irónico que a experiência que tenho é que as pessoas neurodivergentes no geral, que supostamente não têm empatia e tem déficits sociais e outras coisas geralmente são as mais inclusivas, as mais amigáveis e as mais honestas, e as que julgam menos. Como li uma vez “não se trata de exclusão. Quem exclui é o (entre outras formas de opressão) capacitismo. Trata-se mais de darmos valor uns aos outros, já que mais ninguém dá.” E é isto. Estarmos unidos é fantástico porque nos empodera enquanto grupo discriminado, e isto pode levar a melhoras na nossa situação.

3 – Ninguém deve nada a ninguém

Sim, também tenho dificuldades a aceitar este facto por vezes. Durante muitos anos fui sucessivamente excluída de várias coisas. Aliás, hoje acredito que ainda seja. E sim, se for confrontar vão dizer que não, não são assim, ou que não me discriminam por ser autista, mas sei que infelizmente, digam o que disserem, sim, sou. Se calhar até podem nem se dar conta, mas as microagressões existem. No entanto, eles são livres de convidarem quem quiserem, e se não quiserem a nossa presença em alguma atividade, seja uma ida ao café ou uma excursão à América do Sul, não devem nada. Isto parece muito pouco empático da minha parte “então eles excluem-te e tu não te importas, Catarina?”. Respondo: “já me importei muito, e do que isso adiantou? Frustração! Eles não vão dizer “desculpa, erramos realmente”, mais depressa vão fazer gaslighting.” A verdade é que se não querem a nossa presença, seja qual for a razão, paciência, forçá-la é muito pior. Os convites, a inclusão e a aceitação têm de ser feitos por livre e espontânea vontade. Temos é que lutar por esta aceitação, pela inclusão de verdade, não para que os outros gostem de nós e nos incluam por obrigação.

4 – Os outros, no geral, não têm o direito de decidir o que podemos ou não fazer

Atenção, antes que seja mal interpretada: estou a falar na população em geral ter a tendência de limitar alguém por causa de estereótipos associados a determinada deficiência, não nos casos em que por exemplo um médico proíbe um paciente alcoólico de beber, ou um cego não poder conduzir um carro típico, essas situações óbvias. As pessoas, no geral, têm a mania de colocar tudo em caixinhas, e estereotipar as pessoas com alguma deficiência. Achar que a pessoa, por ser x não pode automaticamente fazer tal coisa. Vê-se muito isso, por exemplo, quando alguma criança é diagnosticada com autismo e dizem logo aos pais que não vai conseguir ir para a faculdade, ter amigos, ter a carta, etc. ou quando se infantiliza a pessoa adulta e não se dá as mesmas oportunidades e convites que se daria a um amigo típico. Isto vai de encontro ao ponto 1 e 3. No entanto, como já referi, quem decide o que queremos fazer, quem nos define somos nós mesmos…

5 – …não existe sonhos ridículos ou impossíveis.

Há alturas que tenho vergonha de mim, por muitas vezes expressar os meus desejos e sonhos e ainda não ter condições financeiras para tal. Ou por achar que os típicos vão achar que é “too much” para mim e nas costas ridicularizarem-me. Somos humanos e como tal temos esse direito! Estou no meu direito de sonhar e de querer fazer coisas. Nem que seja com adaptações, o que interessa é viver. Por exemplo, tenho o sonho de viajar por aí, conhecer o mundo. Adoro comboios, é o meu meio de transporte favorito, queria mesmo muito viajar pela Europa de comboio. Sabem que mais? Tenho esse direito, e também tenho direito às adaptações que eventualmente precisar, não a que digam que é impossível.

6 – Não devemos deixar que nos façam sentir inferiores por precisarmos de adaptações/ajuda

Ainda luto muito contra este aspeto. Não somos inferiores por precisarmos de ajuda/adaptações em coisas que a maioria faz de olhos fechados. Ou por não conseguirmos ser tão produtivos por vezes. Por consideramos que há coisas que realmente não são para nós e preferirmos dispensá-las (atenção, quem decide isto é a própria pessoa). O que interessa é concretizarmos os nossos objetivos no nosso tempo e à nossa maneira, isto não é uma competição de Fórmula 1. Há várias maneiras de se viver a vida e todas são válidas. As adaptações servem para equalizar, não para beneficiar ninguém em detrimento de outros. Os seres humanos são um animal social, ninguém faz tudo por ele mesmo, precisamos sempre da colaboração uns dos outros. As pessoas sobrevivem porque se ajudam mutuamente. No nosso caso, precisamos de coisas específicas. Somos diferentes, temos um cérebro diferente, não pior, isso é um facto. Não tem mal nenhum. É muito melhor sermos ajudados naquilo que temos dificuldade e assim conseguimos reservar a nossa energia para aquilo em que brilhamos, de forma a concretizar todo o nosso potencial. Somos válidos exatamente como somos, as nossas conquistas não têm valor inferior por terem sido realizadas de forma não habitual.

7 – As conquistas são sempre conquistas, demoremos um ou dez anos

Continuando o ponto anterior, as pessoas têm a mania de julgar o outro por não realizar os objetivos logo de primeira. Ou por pensarem de forma diferente. Por serem peculiares. “Ai só passaste à terceira no exame de condução? Passei à primeira!” “Ai demoraste mais a concluir a faculdade? Eu nunca chumbei em nada e fui aluna de mérito!” “Os teus amigos são pelo Zoom? Tenho amigos reais” Ok, felicidades para ti. Que bom que conseguiste. O que interessa é passar nesse exame, e a pessoa depois conduzir bem efetivamente. O que interessa é a pessoa ter o diploma no fim, e conseguir arranjar algum emprego com ele. O que interessa é encontramos pessoas que gostem de nós e que nos oiçam, seja online ou offline. Até porque as amizades online podem tornar-se offline, e os próprios típicos também recorrem ao online para encontrarem amigos ou outras coisas ainda maiores. A questão deveria ser mais se as pessoas estão a participar em igualdade de circunstâncias. Aqui entra o ponto anterior. A questão deveria ser adaptar-se ao modo de funcionamento do outro de forma a obter os melhores resultados possíveis. Se demorar mais, não interessa, o que interessa é chegar. No meu caso, vou demorar mais do que o típico a ter o “canudo”? Sim! O facto é que fiz com quase nenhuma ajuda, sofri e aturei coisas que os outros não aturaram! É a história do peixe a tentar trepar a árvore! Esforcei-me bastante, e ninguém tem o direito de tirar o mérito de mim.

Em suma, somos todos incríveis e merecemos melhor do que temos. Devemo-nos unir e lutar pelos nossos direitos, e dar menos ouvidos a quem não sabe nada. Devemos focar em quem realmente acredita em nós. Com o tempo, acredito que evoluiremos e serão mais as pessoas a acreditar e a aceitar-nos e a dar-nos o valor que realmente temos. Este texto não é um ataque aos típicos, na verdade até é bom que leiam de forma a conhecer a nossa realidade e poderem colocar-se mais na nossa situação. E acredito que haja quem tenha o espírito aberto e queira crescer, aprender, já me cruzei com pessoas assim. É mais um texto para ajudar-nos a enfrentarmos as situações negativas no dia a dia.