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Testemunho de Liliana

Eu sei que deveria ir ao médico em busca de uma avaliação, mas neste momento é-me impossível fazê-lo. É algo que está nos meus planos e que desejo muito, talvez consiga no próximo ano. Até lá, tem-me ajudado muito ler os vossos testemunhos. Queria expor aqui algumas das coisas que eu sinto e saber a vossa opinião. Há quem diga que é uma loucura eu pensar que sou autista, porque pareço muito “normal”, e isso desanima-me muito, mas eu acredito que sou. O meu filho mais novo foi diagnosticado com autismo e comecei a ler sobre o assunto e identifiquei-me imenso. Muito obrigada!

– Sinto-me extremamente desconfortável a olhar nos olhos das pessoas. Evito ao máximo, mas há situações em que tenho de forçar e sinto-me muito mal. Sinto que fico concentrada na tentativa de olhar, ficando desconfortável sem saber quando devo parar, e acabo por não ouvir nada do que me estão a dizer porque estou concentrada nessa tarefa difícil.

– Desde pequena que me sinto diferente dos outros, que não encaixo. Então sempre dei comigo a imitir as pessoas para saber como me comportar ou como agir. Quando não tenho um molde a seguir, fico muito desconfortável por não saber que normas seguir.

– Fico nervosa com coisas muito simples, como entrar num café que não conheço. Na verdade, entrar em qualquer lado que não conheço me deixa nervosa e fico sempre com a sensação que não sei agir, que preciso de um molde mas como adulta sinto-me ridícula ao precisar disso porque vejo os outros sempre a agir de forma tão natural, sem se precisarem de preparar.

– Fico muito nervosa ao receber e fazer telefonemas. Preciso de me preparar. É normal deixar o telemóvel tocar bastante até ser capaz de atender, ficando a olhar para o telemóvel. Ou deixo mesmo a chamada cair e depois espero que contactem de novo. Preciso de preparar qualquer telefonema que vá fazer, mentalmente ou por escrito e o meu coração bate muito rápido.

– Quando vou ao médico fico muito ansiosa também. Normalmente fico até com problemas intestinais nesse dia, até chegar o momento da consulta. Fico fisicamente doente e psicologicamente muito cansada. Fico a preparar o que vou dizer com antecedência e a repetir as frases repetitivamente na minha cabeça.

– Costumo balançar-me muito para os lados e para a frente e para trás ou rodar sobre mim mesma. Isto normalmente quando estou à espera de algo, numa fila, numa conversa com alguém ou se simplesmente estiver parada num sítio.

– Sempre roí as unhas, desde os 5 anos.

– Sempre gostei de falar sozinha e uma das coisas que mais gostava de fazer em criança era “estar a pensar”. Sempre filosofei muito.

– Era uma criança com muita imaginação e tinha muitos amigos. Mas sempre me senti tímida e insegura com eles. Sempre os tentei imitar em algo. Quando tinha 4 anos, portei-me mal na creche e o meu castigo foi ter de ir brincar às barbies com outra menina. Até hoje não me esqueço, foi o pior castigo de sempre. Não gostava de brincar com bonecos com outras pessoas.

– Em adolescente fazia nós no cabelo e arrancava-os, ao ponto de ficar com peladas na cabeça.

– Tenho tiques nervosos com o pescoço e ombros desde criança.

– Mexo muito as mãos e as pernas, roo canetas e lápis e se estiver num jardim costumo ficar a arrancar relva com as mãos

– Desde sempre que chucho no dedo e coloco as mãos em extremidades frias do meu corpo, faço-o sempre em casa, todos os dias e isso acalma-me. Se estiver sozinha no trabalho, dou comigo a fazê-lo. Se não estiver sozinha, já cheguei a ir à casa de banho apenas para o fazer para me acalmar.

– Gosto de pessoas, gosto de estar com pessoas e sou divertida. Mas fico muito nervosa ao combinar algo com alguém. Fico sempre com vontade de cancelar à última da hora, preciso de preparar conversas na minha cabeça e fico nervosa. Sinto que uso uma máscara e que não consigo ser eu mesma, exceto com algumas pessoas.

– É difícil concentrar-me nas conversas, desligo muito rapidamente. Começo a focar-me nos meus pensamentos e fico a navegar. Quando volto, tenho de fingir que ouvi e tentar integrar-me de novo na conversa. Tenho muita dificuldade de concentração, sobretudo se o tema não me agradar. Se o tema me agradar, não quero parar, fico concentrada e com imensa vontade de falar, muitas vezes interrompendo as pessoas. No final de uma conversa tenho dificuldade em resumir aquilo que estivemos a falar, é como se não soubesse bem o que estivemos lá a fazer, provavelmente devido à falta de atenção. Isto acontece até em reuniões de trabalho ou vídeo-chamadas, etc. Eu começo a navegar e só me apercebo quando já perdi a maior parte do que está a ser falado.

– Fico exausta depois de uma reunião, precisando de tempo para me restabelecer. Fico cansada após um simples telefonema. Fico exausta após uma consulta no médico.

– Dificuldade em reter informação falada. Preciso de instruções escritas para não me perder.

– Por vezes não consigo dormir devido a músicas que se repetem na minha cabeça ou mesmo frases. Isso irrita-me mas não consigo desligar.

– Percebo ironia mas também sou muito literal, então às vezes tenho dificuldade em perceber se a pessoa está a brincar comigo ou se está a falar a sério. Dou comigo a perguntar imensas vezes “mas estás a falar a sério? É a sério?”. As pessoas dizem que me repito muito, que faço as mesmas perguntas e digo as mesmas coisas.

– tenho dificuldade em distinguir a esquerda da direita.

– Adoro ler mas quando leio, tenho dificuldade em memorizar. Leio uma frase, quando chego ao final não me lembro do inicio. Isso dificulta muito a minha compreensão. No final do livro, compreendo o todo, mas não me lembro dos detalhes e não consigo resumir a história a outra pessoa.

– Quando estou interessada num assunto, só consigo pensar nisso. Quero pesquisar sobre isso, ler sobre isso, pensar nisso. Irrito-me por ter de desviar a minha atenção para outros assuntos.

– Sou uma pessoa que por fora é extremamente calma e serena. Por dentro estou sempre em conflito interno. Tenho crises de ansiedade e quando chego ao meu limite tenho explosões em que grito e bato nas coisas e atiro portas.

– Não suporto que me mexam no cabelo.

– Não suporto roupa de lã. Só de pensar nisso, sinto uma aflição estranha nos dentes, desde criança.

– Não suporto etiquetas de roupa.

– Não suporto roupa desconfortável e que me aperte.

– Prefiro o conforto do que a vaidade.

– Sou muito sensível ao calor. O calor deixa-me nervosa, por isso é comum estar na rua no Inverno mesmo sem casaco.

– Muito ruído ou pessoas a falarem ao mesmo tempo incomodam-me muito. Bem como determinadas luzes. Já fui ao oftalmologista diversas vezes por ter os olhos muito sensíveis, mas nunca me foi diagnosticado qualquer problema físico.

– Não consigo conduzir, apesar de ter carta de condução, devido à confusão mental que sinto com tanto estímulo.

– É comum perder-me, até em caminhos que já percorri. Aos 17 anos ia semanalmente a uma psicóloga e todas as vezes que lá ia, perdia-me no caminho.

– Sou extremamente empática. Coloco-me facilmente no lugar do outro e sofro imenso com isso.

– Comecei a ir a psicóloga aos 13 anos por ser muito tímida e insegura. Cheguei a sentir fobia social. Aos 17 anos fui diagnosticada com ansiedade generalizada por ter imensas crises e ataques de pânico.

– Apesar de tudo isto, qualquer pessoa que conheço, se fosse questionada, diria que sou uma pessoa perfeitamente “normal”, dou-me com as pessoas, sou independente, sou licenciada em educação, escrevi um livro infantil, trabalho, tenho casa, marido, filhos…