Critérios de diagnóstico

Na criança

De acordo com os Guias NICE (https://www.nice.org.uk/guidance/cg128)

Os típicos traços que se procuram para o diagnóstico são os seguintes:

Linguagem e fala

Regressão ou perda do uso da fala

Atraso de linguagem (por exemplo, menos de dez palavras aos 2 anos de idade).

A linguagem falada (se presente) pode incluir: vocalizações em vez de palavras, tom de voz diferente ou plano, repetição frequente de palavras e frases (ecolalia)

Referência a si mesmo pelo nome ou ‘você’ ou ‘ela/ele’ além de 3 anos.

Responder aos outros

Resposta ausente ou atrasada ao seu nome ao ser chamado, apesar da audição normal

Sorriso social responsivo reduzido ou ausente.

Resposta reduzida ou ausente às expressões faciais de outras pessoas.

Resposta excecionalmente negativa aos pedidos dos outros (comportamento de evitação da demanda).

Rejeição de carinhos iniciados pelos pais ou cuidadores, embora possam iniciar os próprios carinhos.

Interagir com os outros

Consciência reduzida ou ausente do espaço pessoal, ou intolerante com as pessoas que entram no seu espaço pessoal.

Interesse social reduzido ou ausente nos outros, incluindo crianças da sua idade; se estiver interessado, pode abordar os outros de forma inadequada.

Imitação reduzida ou ausente das ações dos outros (ou imitação excessiva. Meninas têm uma maior tendência em imitar os outros)

Iniciação reduzida ou ausente de brincadeiras sociais com outros, brinca sozinho.

Prazer reduzido ou ausente de situações que a maioria das crianças gosta, por exemplo, festas de aniversário.

Partilha emocional, por exemplo, de felicidade reduzido ou ausente

Contato visual, apontar e outros gestos

Uso reduzido ou ausente de gestos e expressões faciais para se comunicar, ou inadequados á situação (ou copiar dos outros á sua volta).

Gestos reduzidos e mal integrados, expressões faciais, orientação corporal, contato visual (olhar nos olhos das pessoas ao falar)

Uso social reduzido ou ausente do contato visual, pressupondo visão adequada, ou uso excessivo

Atenção conjunta reduzida ou ausente demonstrada pela falta de: alteração na direção do olhar, seguir um ponto (olhar para onde a outra pessoa aponta – pode olhar para a mão), usar o apontar ou mostrar objetos para partilhar interesse

Ideias e imaginação

Imaginação reduzida ou ausente e variedade de brincadeiras de faz de conta (mas pode ter uma imaginação interior rica)

Interesses incomuns ou restritos e/ou comportamentos rígidos e repetitivos

Movimentos de estereotipia repetitivos, como bater as mãos, balançar o corpo em pé, girar, sacudir os dedos.

Brincadeiras repetitivas ou estereotipadas, por exemplo, abrir e fechar portas.

Interesses excessivamente focados ou incomuns

Insistência excessiva em seguir a própria agenda.

Extremos de reatividade emocional a mudanças ou novas situações, insistência em que as coisas sejam ‘as mesmas’.

Mais ou menos reação a estímulos sensoriais, por exemplo, texturas, sons, cheiros (por exemplo estar constantemente a pedir abraços ou evitar qualquer toque)

Reação excessiva ao sabor, cheiro, textura ou aparência dos alimentos ou modas alimentares extremas.

No Adulto

De acordo com a DSM-5 – American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed.). 

Os típicos traços que se procuram para o diagnóstico são os seguintes:

Défices persistentes na comunicação social e interação social em vários contextos

Défices de reciprocidade socioemocional, variando, por exemplo, de abordagem social atípica e dificuldades em manter conversas; ao reduzido compartilhamento de interesses, emoções ou afeto; ou dificuldade em iniciar ou responder às interações sociais.

Acha difícil iniciar conversas?

Acha difícil manter uma conversa em grupo?

Interrompe as pessoas a falar, ou deixa pausas na conversa?

Tem dificuldade em saber quando é sua vez de falar?

Fica aborrecido facilmente quando alguém quer falar sobre algo que não lhe interessa?

Acha difícil envolver-se em conversa fiada?

Vê a conversa como uma troca de informações, em vez de uma conexão emocional?

Pensa que não gosta de situações sociais como as outras parecem gostar?

Sente-se cansado após conversas sociais?

Dificuldades em comportamentos comunicativos não verbais usados ​​para interação social, variando, por exemplo, de comunicação não verbal baixa ou inexistente; a contato visual atípico, ou défices na compreensão e uso de gestos e linguagem corporal; a uma total falta de expressões faciais e comunicação não verbal.

Acha difícil e perturbador olhar alguém nos olhos, mesmo se puder? 

Não gosta de olhar nos olhos, ou olha demasiado?

Já recebeu comentários sobre como as suas expressões faciais não combinavam com a situação?

Costuma imitar gestos e expressões e formas de falar de outras pessoas?

Já recebeu perguntas como “Está chateado?” quando não estava?

Acha difícil fazer propositadamente expressões faciais para uma situação, como sorrir para uma foto?

Se está a conversar com alguém, costuma desviar o olhar se precisa de pensar em algo?

Já lhe disseram que tem expressões faciais não congruentes com a situação (como sorrir numa situação triste?)

Alguém já lhe disse que parece agressivo, aborrecido ou chateado, quando não está?

Acontece imitar sotaques e expressões das pessoas com quem fala?

Acha difícil reconhecer o sarcasmo e a ironia?

Tem dificuldade em ler a linguagem corporal e as expressões faciais?

Dificuldades em desenvolver, manter e compreender relacionamentos, variando, por exemplo, de dificuldades para ajustar o comportamento para se adequar a vários contextos sociais; às dificuldades em compartilhar brincadeiras imaginativas ou em fazer amigos; à ausência de interesse nos pares.

Acha difícil perceber como as outras pessoas se estão a sentir ou a reagir ao que está a dizer?

Acontece não se aperceber de dicas sociais ou informações “nas entrelinhas”?

Acontece rir ou sorrir na hora errada?

Já lhe disseram que é indiferente ou que está no seu mundo?

Prefere e precisa de ficar um tempo sozinho?

Tem dificuldade em saber quanto contacto precisa de manter para manter amizades?

Acha difícil fazer novos amigos?

Acha difícil saber se alguém está a brincar ou a o ridicularizar?

Prefere interação individual em vez de grupos?

Sente que existe um manual de interações sociais ao qual nunca teve acesso, mas que outros parecem ter?

Usa um guião específico nas interações sociais?

Revê conversas antigas e pensa demasiado sobre as futuras?

Padrões restritos e repetitivos de comportamento, interesses ou atividades

Movimentos motores estereotipados ou repetitivos, uso de objetos ou fala, de forma repetitiva e constante

Repete palavras, frases ou expressões que ouve em filmes ou conversa (ecolália)?

A brincar alinha e/ou organiza os brinquedos?

Usa palavras ou estrutura de fala excecionalmente formais?

Tem algumas frases que usa com frequência, mesmo quando desadequadas?

Realiza movimentos repetitivos com as mãos, como agitar as mãos, agitar os dedos ou manipular objetos?

Tem uma posição sentada pouco comum?

Range os dentes ou morde os lábios ou a bochecha?

Insistência em manter rotinas, adesão inflexível a rotinas ou padrões ritualizados de comportamento verbal ou não verbal.

Acha difícil encerrar uma atividade e iniciar outra? 

Tem dificuldades em concluir tarefas de auto-cuidado, como tomar banho ou escovar os dentes?

As outras pessoas dizem que reage de forma exagerada às mudanças de planos?

Usa os mesmos supermercados, compra as mesmas marcas e come o mesmo tipo de alimentos por longos períodos de tempo? 

Tem regras e rituais que gosta de seguir?

As outras pessoas dizem que é controlador?

Fica frustrado com situações que não estão definidas (por exemplo, se perguntar para que restaurante ir e alguém responder “vamos ver”)?

Interesses altamente restritos e fixos que são atípicos em intensidade ou foco.

Interessa-se muito por determinados tópicos, com uma intensidade que os seus colegas não têm?

Quando se interessa por um tópico, assume muitos aspetos da sua vida (conversar, colecionar e pensar sobre isso)?

Acha que se concentra mais nos detalhes do que na visão geral?

Tem interesses incomuns?

O seu tempo de lazer tende a ser gasto na dedicação a estes interesses?

Gosta de colecionar itens ou informações?

Hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais ou interesse incomum em aspetos sensoriais do ambiente, ou seja, tem uma baixa reatividade e procura os estímulos, ou tem uma alta reatividade e evita estímulos sensoriais.

Acha que certas texturas ou estilos de roupas (como costuras, etiquetas, etc.) são irritantes e dolorosos?

Acha que algumas tarefas de auto-cuidado, como escovar os dentes ou cortar o cabelo, são fisicamente desconfortáveis ​​ou dolorosos?

É incomumente sensível ao calor ou ao frio?

Acha certos sons (não necessariamente altos, mas repetitivos, como pessoas a falar) dolorosos ou desconfortáveis?

Acha difícil acompanhar conversas com ruído de fundo?

Acha certa iluminação dolorosa ou difícil de tolerar?

É sensível a cheiros ao ponto de ficar nauseado?

Não consegue comer alguns alimentos devido à sua textura ou cor?

Tem uma tolerância excecionalmente alta à dor?

Sente-se atraído por certas texturas, cheiros ou padrões visuais?

Procura pressão profunda, como abraços apertados, cobertores pesados ​​ou espaços apertados?

Os traços devem estar presentes no início do período de desenvolvimento. Podem, no entanto, não se manifestar totalmente até que as exigências sociais excedam as capacidades limitadas, ou podem ser mascarados por estratégias aprendidas mais tarde na vida. Os traços causam prejuízo clinicamente significativo no funcionamento social, ocupacional ou em outras áreas importantes do funcionamento atual. Isto não significa apenas falta de emprego ou relacionamentos, pode significar impacto na saúde mental.
Também é necessário garantir que estas dificuldades não podem ser explicadas pela incapacidade intelectual ou por um atraso global do desenvolvimento. A incapacidade intelectual e  as perturbações do espectro do autismo podem co-ocorrer.

American Psychiatric Association. (2013). Diagnostic and statistical manual of mental disorders (5th ed.).

Se leu os traços típicos do Autismo e se identificou com muitos deles...

E agora?

Faça o teste do Autismo para ter melhor ideia das características e para validar as suas suspeitas. Pode fazê-lo através do botão “teste” – The Ritvo Autism Asperger Diagnostic Scale-Revised (RAADS-R) ou O Quociente do Espectro do Autismo (teste AQ).
Se acha que o seu filho/a pode ser autista, veja o vídeo através do botão “video” (infelizmente, ainda só está disponível em inglês).

Se o teste deu pontuações semelhantes a autistas, comece a ler sobre as particularidades dos traços, em criança (pode ver o vídeo acima), adolescente e adulto, visto que os traços variam em intensidade e em tipo, consoante a idade. Junte-se a grupos online de autistas no Facebook e siga autistas nas redes sociais (pode encontrar vozes autistas online através de #actuallyautistic ). Faça perguntas. Por vezes temos traços que nem sabíamos ter, por pensarmos que toda a gente se sentia dessa forma.
Se o autista for o seu filho/a, faça perguntas a autistas adultos sobre quando eles eram crianças. É um recurso importantíssimo visto que por vezes temos dificuldades semelhantes, mas que já aprendemos a gerir. Faça uma lista dessas características. Tente usar experiências específicas pessoais, por exemplo, “quando eu era criança abria os presentes de Natal mas nunca brincava com eles a seguir”.

Procure um especialista específico para o seu caso, dando particular importância à experiência na área, especialmente se for mulher ou se for adulto. Dê preferência a profissionais com experiência comprovada no diagnóstico e acompanhamento de pessoas com Perturbações do Espetro do Autismo (PEA), uma vez que um psicólogo menos experiente poderá ter uma visão menos consolidada das PEA.

Continue a explorar quem é. Muitos de nós passámos anos a sentir que não somos  suficientes, por nos compararmos a neurotípicos mas sermos diferentes. O cérebro autista é bonito e complexo demais para nos restringirmos a tentar ser como os outros.

Alguma questão que tenham sobre passos a seguir, ou mesmo sobre o Autismo em geral, por favor contacte-nos ou junte-se aos nossos Grupos de apoio.