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Socialização e Comunicação

Mascaramento

O mascarar é o ato de encobrir os nossos traços neurodivergentes, a fim de parecer “normais”, ou seja, é quando o autista observa e analisa o comportamento dos outros e os imita, para esconder dificuldades de socialização.
Pode ser usado por homens e mulheres, no entanto, devido à dinâmica e expectativas da mulher na sociedade, é-lhes mais fácil mascarar – esta representa, inclusive, uma das principais dificuldades no diagnóstico.
No entanto, camuflar os nossos traços é cansativo e pode fazer com que seja difícil reconhecermos versões de nós construídas, e a versão real, originando um “eu” pouco definido. A nossa identidade é importante e a falta dela pode afetar a forma como nos vemos e até contribuir para sintomatologia do foro psicológico.
Não é uma escolha consciente, nem uma tentativa de sermos falsos ou manipular. É uma estratégia para lidar com o facto de sermos diferentes e para a integração na sociedade. Com algumas pessoas podemos não sentir tanto a necessidade de mascarar, e sermos mais nós, como por exemplo, com outras pessoas neurodivergentes.
Temos que dar espaço na sociedade para autistas serem quem são, sem mascaramento ou ter que pedir desculpa.

Diferentes formas de mascarar:

Dizer que estou cansado(a), quando estou sobrecarregado(a)

Evitar fazer estereotipias em público 

Olhar para as sobrancelhas em vez de olhar nos olhos

Copiar o estilo de roupa de outras pessoas

Ler um livro, quando fico não-verbal

Fingir que tenho muito trabalho para poder almoçar sozinho(a)

Fingir que estou a escrever algo para não ter que olhar as pessoas nos olhos durante uma reunião

Ter um guião de conversa fiada

Passar o dia a tentar  “integrar-se” e chegar a casa exausta

Pensar demasiado em conversas anteriores e analisá-las para saber o que dizer da próxima vez

Embora o mascaramento seja uma forma bastante eficaz de esconder o autismo, a longo prazo começa a ser associado como umas das maiores causas de desregulação, burnout, doenças mentais e tentativas de suicídio nos autistas adultos. Uma pesquisa britânica de 2017 mostrou que a exaustão é universal nos autistas adultos, que dizem sentirem-se totalmente esgotados – mentalmente, fisicamente e emocionalmente. Os poucos estudos sobre este assunto mostram que o mascaramento está proporcionalmente ligado a psicopatologia, como perturbações depressivas e perturbações de ansiedade, assim como a um aumento da probabilidade de suicídio. O mascarar drena a nossa capacidade cognitiva mais rapidamente, devido ao esforço de socializar e mascarar, e, portanto, é comum os autistas chegarem da escola irritadiços, cansados e com dificuldade de regulação. A camuflagem excessiva, feita por anos sem fim, também pode causar que percamos de vista a nossa verdadeira identidade. A identidade é essencial ao ser humano, e sem a aceitação da nossa identidade, seja por nós, ou pelos outros, nunca poderemos chegar à verdadeira inclusão.

Alexitimia

Alexitimia é a dificuldade em identificar, distinguir e descrever as emoções que sentimos, usar termos emotivos, ou ler e identificar o que os outros sentem. Pensa-se que pelo menos 50% dos Autistas tenham Alexitimia e que dificuldade em ler comunicação não verbal e baixa empatia pode ser derivado da Alexitimia, não do Autismo. Alexitimia torna difícil aceder a emoções, e poderá fazer o mesmo com empatia. No entanto, eu mostro sinais físicos de empatia, só não consigo a identificar, assim como outras emoções. De qualquer forma temos empatia aprendida, mesmo que sem empatia intuitiva. Autistas podem ser hiper-empáticos, fazendo com que o que os outros sentem seja demasiado para eles.

Teoria da Empatia Dupla

A Teoria da Dupla Empatia sugere que, quando pessoas com perspectivas muito diferentes do mundo interagem, elas tem difculdade em ter empatia e se comunicar um com o outro. O Problema da Dupla Empatia, quando aplicado ao autismo, sugere que a comunicação entre autistas é tão eficiente quanto entre neurotípicos, uma vez que temos formas semelhantes de nos comunicarmos, e que as dificuldades de comunicação surgem da incompatibilidade entre os neurótipos, ou seja, entre pessoas autistas e não autistas. Esses resultados desafiam o critério diagnóstico de que autistas não têm as habilidades para interagir com sucesso. Isso foi confirmado pelo Crompton et al, 2020, onde testaram as informações passadas entre autistas, entre neurotípicos e cadeias mistas. Este estudo mostrou eficiência igual quando o neurótipo era o mesmo e capacidade de comunicação diminuída quando era misturado.

Portanto, não é necessariamente que os autistas tenham uma incapacidade na comunicação, mas eles a têm QUANDO estão a comunicar com alguém que não é autista, e é tão correto dizer que um neurotípico tem uma incapacidade na comunicação, SE eles estão a falar com um autista. Talvez, se não virmos isto como uma deficiência, pessoas não autistas também façam um esforço para se comunicar e acomodar a nossa maneira de o fazer.

Milton, D, 2012, On the Ontological Status of Autism: the ‘Double Empathy Problem’. https://kar.kent.ac.uk/62639/1/Double%20empathy%20problem.pdf

Crompton et al, 2020, “Autistic peer-to-peer information transfer is highly effective”. https://journals.sagepub.com/doi/full/10.1177/1362361320919286