A APVA – Associação Portuguesa Voz do Autista – manifesta o seu profundo repúdio perante os múltiplos obstáculos, silenciamentos e formas de violência institucional enfrentadas pela nossa vice-presidente, Mayne Benedetto, durante o processo de finalização e defesa da sua tese de doutoramento.
A tese, intitulada Normal é Só Mais Uma Palavra para Branco – Experiências Autistas para Além do Fardo Binário, é uma investigação pioneira sobre a interseccionalidade entre autismo, género e racialidade, com foco na branquitude enquanto modelo neutro e universal nos estudos sobre deficiência e neurodivergência. Através de coautorias com pessoas negras, autistas, trans e não-binárias, a autora propõe uma ruptura com os modelos académicos tradicionais e uma redistribuição do poder epistémico, centrando as vozes habitualmente silenciadas na produção científica.
Durante o seu percurso académico, Mayne enfrentou sucessivas resistências. Foi pressionada a suprimir 40 páginas da tese sem qualquer parecer técnico escrito; viu a sua orientação ser interrompida; perdeu apoio institucional e enfrentou longos períodos sem resposta por parte dos canais formais. Ainda assim, submeteu a sua tese com capítulos e artigos já publicados, aceites ou em revisão em revistas científicas relevantes.
A investigadora foi selecionada para um projeto de pós-doutoramento numa universidade de referência nos Estados Unidos, dedicada à investigação sobre saúde e direitos da população negra. Esta bolsa visava explorar o fenómeno do duplo mascaramento em pessoas negras autistas — uma proposta inovadora que articula experiências de camuflagem social com mecanismos de opressão racial e epistémica. A defesa da tese era condição indispensável para o início do projeto.
Após meses de espera e adiamentos, na sequência de uma providência cautelar, a defesa foi finalmente marcada para o dia 15 de julho. Mais de 70 pessoas compareceram online para apoiar a Mayne. No entanto, logo no início da sessão, foi anunciado que a defesa não se realizaria, alegando-se ausência de unanimidade do júri e falta de condições mínimas para avaliação da tese. A investigadora foi impedida de intervir e viu o seu microfone ser desligado repetidamente. Dias antes, teve conhecimento de comunicações internas dirigidas ao júri que desencorajavam a aprovação da tese, apesar da marcação formal da defesa.
A não realização da defesa dentro do prazo previsto resultou na perda da bolsa de pós-doutoramento e na ameaça de repatriação. Neste momento, Mayne encontra-se isolada institucionalmente, sem orientação ativa nem apoio formal, e com sérias consequências na sua vida académica e pessoal.
A APVA considera este caso paradigmático da forma como corpos e vozes dissidentes continuam a ser sistematicamente marginalizados no espaço académico. Quando uma mulher autista, latina e migrante ousa questionar as estruturas de poder que ditam o que é considerado conhecimento válido, enfrenta o silenciamento, a invalidação e o afastamento.
A luta da Mayne é uma luta coletiva. Não se trata apenas de uma injustiça individual, mas de uma barreira estrutural ao direito das pessoas não-brancas e neurodivergentes de participarem plenamente na ciência, na produção de saber e na construção de futuros mais justos.
Reafirmamos o nosso compromisso com a justiça epistémica, com a inclusão radical e com o direito de todas as pessoas autistas — racializadas, queer, trans, com múltipla deficiência — a ocuparem todos os espaços com dignidade, liberdade e segurança.
Nada sobre nós sem nós. Nenhuma de nós para trás.
Aveiro, 5 de agosto de 2025
Associação Portuguesa Voz do Autista